domingo, 21 de janeiro de 2018

sábado, 20 de janeiro de 2018

Preâmbulo de um acordo comercial entre os Estados Unidos e um dos Xás da Pérsia da dinastia Safávida (1501–1736):



O Presidente dos Estados Unidos da América do Norte e sua majestade tão celebrada quanto o planeta Saturno, soberano a quem o sol serve como modelo, cujo esplendor e magnificência são iguais aos dos céus, sublime soberano, monarca cujos exércitos são numerosos como as estrelas , cuja grandeza lembra a de Jenishid, cuja magnificência iguala a de Dario, herdeiro da coroa e do trono dos Kayanidas sublime imperador de toda a Pérsia, estando ambos igualmente e sinceramente desejosos de estabelecer relações de amizade entre os dois governos, que pretendem fortalecer mediante um tratado de amizade e comércio, reciprocamente vantajoso e útil aos cidadãos das duas altas partes contratantes, nomearam para o efeito seus plenipotenciários ...

in A Ordem Mundial de Henry Kissinger 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Lembranças do Olimpo (30)


Era Inverno. Os dias pequenos e a instabilidade do tempo, não estimulavam saídas. Hipólito aproveitava o domingo para concertar aquelas pequenas coisas que se arrumam a um canto à espera que uma disposição nos leve a medir com dificuldades que se têm por garantidas, pois a “obsolescência programada” é uma realidade, e aquilo que pensávamos ser para lavar e durar, acaba ao fim de meia dúzia de meses de uma utilização normal.

Pegou num candeeiro de mesinha de cabeceira e procurou numa caixa onde guardara uns antigos que herdara de uma sua avó, um abajour para substituir o original que estava partido. Não serviam. Voltou-se então para a torradeira. Revirou-a. Os dois parafusos embotados eram impossíveis de desapertar. Estava a perder tempo. Decidiu-lhe o destino - reciclagem do material eléctrico.  Limpou os bornes a uma lanterna, mudou-lhe as pilhas e acendeu. - Graças a Deus!, e falou com o aspirador, antes de lhe tocar: - Espero que não me deixes ficar mal...!,  e o aspirador fez-lhe a vontade. A substituição da ficha resolveu o problema.
Estava a medir o vidro de um quadro, quando sentiu um toque de um Mail no smartphone. Retirou-o do bolso, e leu:

- Caro Dr. Hipólito:

A Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros, irá efectuar brevemente a sua Reunião Anual, sob o tema – O Futuro e as Crenças!

Tendo chegado ao nosso conhecimento que, nos últimos tempos, o Dr. tem recebido, frequentes visitas de deuses no activo e até de alguns já reformados, tínhamos o maior prazer que partilhasse connosco algumas das suas experiências, numa das mesas redondas da nossa Reunião, ficando a tema da sua palestra inteiramente a sua disposição.

Todas as despesas com deslocação, alojamento e alimentação ficarão a cargo da Organização. De acordo com as normas da nossa Sociedade, não há “Fee” para os intervenientes, incluindo os convidados.

Sem mais,

Atenciosamente,


Hipólito leu as datas e o local – 14 de Maio, Massada – Israel, uma assinatura indecifrável e por baixo “Benjamin Cohen”, Presidente da 70ª Reunião da SUNF.

Meteu o smartphone no bolso e sentou-se. Como seria possível que alguém soubesse daqueles seus encontros, se tudo se tinha passado em locais recatados, sem a presença de qualquer outro humano? Olhou em volta na procura de algo estranho, enquanto congeminava em quão pequeno está o mundo e na entrada triunfal que alguns dos deuses quiseram fazer nas suas aparições. Mas o que lhe parecia mais provável, era aquele mail ter partido de uma organização do tipo da NSA, da CIA ou do KGB, que esses estão em todo o lado.

Aparentemente eram os judeus os primeiros a questioná-lo e faziam-no de um modo “elegante”, convidando-o para uma Reunião com gente preocupada com as crenças humanas e com o modo de os levar a fazer coisas úteis mesmo que para isso se lhes tenha de dar razões erradas.
O desafio era claro. Quem estava na crista da onda era a gente do dinheiro. Uma reunião no deserto de Israel, no lugar mítico de Massada, onde Herodes “O Grande” construiu um palácio e uma fortaleza “inexpugnável”, até os romanos, no ano 70, o destruíram, depois dos seus defensores se suicidarem para não serem capturados. E quem seriam estes judeus? O Mark Zuckerberg do Facebook?, o Sergey Brin, da Google?, o multimilionário George Soros? o Jared Kushner, genro de Donald Trump?, ou algum dos banqueiros que mandam no mundo, das famílias Rothschild, Lehman Brothers, Goldmans-Saches, ou dos Kuhns,  dos Loebs, ????…  
Antes de aceitar o convite, iria enviar uma carta a perguntar se quem estava por detrás era gente viva ou mortos influentes.
O nome do presidente era “sonante” - Benjamin Cohen. Bin-yamín: ben - “filho”, yamin, “mão direita” - "filho do lado direito", “o bem-amado”. Cohen indica que tem ancestrais sacerdotes no Templo de Jerusalém. Nada mal! Um judeu que, com grande probabilidade, tem registo do DNA para assegurar a sua origem genética.

Olhou em redor como se sentisse vigiado dentro da sua própria casa. Confirmou que o mail não continha nenhum anexo e pesquisou na Net “Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros” sem qualquer resultado significativo.
Podia ser uma brincadeira. Mas quem? Se não contara a ninguém as suas entrevistas com os deuses! Tinha de haver ali uma estrutura com capacidade de vigilância suficiente para ter acesso aos seus movimentos. Tentou ligar para o seu amigo Saldanha, que vivia em Macedo de Cavaleiros e que era filho de um judeu antigo, na esperança de ele lhe poder dar alguma pista, mas ele não atendeu. 

Tentava entender  aquele convite, quando um velho de grandes cabelos e barbas brancas, lhe bateu à porta. Hipólito abriu-a e, parecendo-lhe alguém vindo do Médio Oriente, saudou-o com um "Salaam Aleikum!", ao que ele respondeu "Alaikum As-Salaam!".
Trazia duas tábuas numa das mãos e, na outra, um bastão que o ultrapassava em altura. Vestia uma túnica branca desbotada e, sobre os ombros, uma manta vermelho-da-Pérsia, dava cor à indumentária. O olhar era arguto e cada ruga parecia denunciar um grande problema resolvido. Apesar da idade, que se lhe deduzia, tinha o porte corporal de um haterofilista em fim de carreira.
O médico convidou-o a entrar. O ancião apontou o bordão ao fundo da sala e, de imediato, toda a mobília se arredou para os lados para o deixar passar. O médico seguiu-o e, para corrigir a gafe do cumprimento inicial, arriscou: Shalom! Desculpa não ter percebido logo quem eras! Tomei-te por um palestiniano e afinal, pelo jeito, tu és Moisés, o grande libertador dos hebreus.
- Vejo que estás atento! Respondeu o profeta. – Este truque de afastar as coisas à passagem, é a minha imagem de marca. Faço-o desde que abri as águas do Mar Vermelho. Funciona sempre! Não te esgacei a porta, porque venho numa boa! Estava no Jardim do Éden a apanhar kiwis, quando reparei que estavas atarantado com um convite feito por uma sociedade judaica e não resisti em descer, para te esclarecer as dúvidas que ele te possa ter despertado. Por isso, pergunta que eu respondo, de acordo com as nossas normas internas! 

E dito isso, sentou-se no chão, junto à lareira, e convidou Hipólito a sentar-se em frente.
- Ainda bem que vens com esse espírito! Sorriu o médico. - Tomas uma cerveja ou preferes um copo de vinho para acompanhar a conversa?
- Se o vinho fôr kosher, preferia! Senão, bebo um copo de água!
Hipólito trouxe água e dois copos e sentou-se, como ele, no chão, com as pernas cruzadas.
- Ainda bem que te disponibilizas. Desde jovem que procuro entender os porquês de há mais de três mil anos o povo judeu ter períodos de grande florescimento, seguidos de outros em que é vítima de perseguições. Estou-me a lembrar do Egipto Antigo, da Babilónia, do Império Persa, do Império Selêucida, do Reino dos Ptolomeus, do Império Romano, do Império de Carlos Magno, do Império Islâmico, da Península Ibérica, da União Soviética, da Alemanha … . Em todas essas épocas os judeus ocuparam lugares de grande influência económica e política, mas acabaram perseguidos e expulsos. O que é que, na realidade, se passou para estas reviravoltas?

Moisés rolou o bordão sobre as tábuas, como a procurar palavras para uma explicação resumida e, depois de uma pausa, falou.
- A história é longa mas, para abreviar, lembro-te que, depois da destruição do Segundo Templo em Jerusalém, no ano 70 da Era actual, a sobrevivência da nossa religião exigiu que todos os judeus aprendessem a ler, a escrever e a adquirir competências e que, para assegurar a continuidade, todos os pais eram obrigados a ensinar os filhos a fazê-lo, o que constituiu um desenvolvimento revolucionário numa época em que a grande maioria da população era iletrada.
Ora os Impérios, à medida que se expandem, necessitam de profissionais educados e com competências intelectuais diferenciadas e é por isso que os judeus têm sido solicitados para os países nas épocas em que têm maior desenvolvimento. 
Desde que o mundo iniciou a “globalização”, que os judeus se concentram nas cidades com maior pujança económica, organizando a produção e o comércio, mantendo uma rede de influência altamente eficiente
Hoje em dia, dos treze milhões de judeus, 5,5 milhões vivem em Israel e 5,1 milhões EUA. Neste último vivem maioritariamente em Nova York, onde são 9% da população. Na Califórnia, Texas e Massachussetts, estados que geram o maior número de políticos influentes, são 7,6% dos brancos! 
Na época dos descobrimentos tinham forte presença na Península Ibérica, pois eles foram grandes financiadores dessa actividade. Quando foram expulsos levaram de Lisboa a industria de lapidação e o comércio dos diamantes para a Holanda.

Hipólito conhecia o poder e influência dos judeus no mundo ocidental, por serem dos principais banqueiros e CEOs das maiores multinacionais do mundo. Mas o que Moisés ainda não lhe tinha dito era os porquês das perseguições, e insistiu:
- Já vi que falas debaixo do conceito do “povo escolhido por Deus”, mas as perseguições e as mortes como as do Hananias, do Misael e do Azarias, podem ter outra explicação, à luz do conhecimento actual, que aquela que vem na Bíblia. Há milénios que se fala dos judeus como uma comunidade com grande cooperação dentro do grupo (etnocêntrismo), mas com um código ético muito laxo para com a restante população onde se inserem, que os leva a ser considerados, uns ferozes predadores especializados no crédito, na finança, nos bancos e em actividades tradicionalmente consideradas pouco éticas ou imorais como publicidade, entretenimento e pornografia. 

O mais humilde dos homens sobre a face da terra, que um dia recebeu no alto do Monte Sinai as Tábuas da Lei de Deus, suspirou com enfado e respondeu:
- Olha que eu, levado por uma justa cólera, já matei um feitor egípcio. Questionares que o Hananias, o Misael e o Azarias, depois de terem sido nomeados superintendentes dos negócios da província da Babilónia, deitaram a mão ao dinheiro do Nabucodonosor, e que foi por isso que foram jogados na fornalha ardente, é grave! Foram conversas como essa que levaram ao Holocausto e aos pogroms! O verdadeiro judeu, embora faça a gestão de grandes valores, é frugal porque cumpre o desígnio que Deus lhe atribuiu. Escolhido, não significa superior. Significa que transporta o peso e a responsabilidade de O representar neste mundo. O que tem sucedido é que nem sempre quem nos pede ajuda, faz boa gestão e, quando as coisas correm mal e se necessita de um bode expiatório, encontra-nos sempre à mão. A realidade é que a ausência de perseguição que actualmente se verifica nos EUA, tem diminuído a nossa coesão tornando-nos mais americanos e menos judeus! 

Hipólito retraiu-se. Arriscara questionar aquela história bíblica dos três jovens judeus levados para o Reino da Babilónia, que eram “dez vezes mais doutos que todos os magos daquele reino”, sem contar que Moisés estava habituado a lançar pragas e que até tinha capacidade para o extermínio em massa, como o fizera ao exército egípcio no Mar Vermelho, aquando do Êxodo. Decidira, agora, dar-lhe um pequeno elogio.
- Dizem que os judeus têm um Q.I. muito alto. Quando falei do que se tinha passado com aqueles judeus na Babilónia, não queria sugerir que eles tenham utilizado a vantagem que lhes fora concedida para enriquecimento ilícito. Estava a pensar em eventuais dificuldades de integração. 

- Não foi isso que eu entendi!, respondeu o Profeta. – Tens de ter mais cuidado com o que dizes! Uma palavra desajeitada é como a pasta de dentes fora do tubo, já não a consegues voltar a meter lá dentro. De facto, os Ashkenazi, têm um Q.I. médio entre 110-115, maior que qualquer outro grupo étnico do mundo. Há quem o atribua à sua prática antiga de casamento eugénico, mas eu penso que é o grande envolvimento na educação das suas crianças que os leva a obter estes resultados. É notável que sendo cerca de 0,2% da população mundial, tenham ganho 22% dos Prémios Nobel e vencido 54% dos Campeonatos do Mundo de Xadrez.

A conversa ia longa e o médico ainda não chegara ao ponto que mais lhe interessava e que era saber quais os objectivos últimos daquela reunião em Massada e arriscou a perguntar-lhe.
O profeta levantou-se. Riscou no tapete uma linha, com o bordão e disse: 
- Como sabes, são insondáveis os desígnios do Senhor! Mas está descansado, que quem está a liderar o projecto é o "povo de Deus"!, e dito isto, fez-lhe uma vénia e saiu, enquanto os móveis voltavam à sua distribuição habitual, fazendo com que um candeeiro de pé o atropelasse atirando-o ao chão. 
- lehitraot!, ainda teve tempo de lhe dizer, antes que a porta se fechasse. - lehitraot! ouviu, como um eco, do outro lado.

Hipólito sentou-se no sofá. Esta entrevista não fora nada produtiva. As suas dúvidas continuavam mais que muitas!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Esquizofrenia 2



Sente-se “decaído!”, cansado e com a boca queimada - "foi ao comer a sopa!". Diz ter sido burlado! Venderam-lhe um telemóvel desactualizado e não dormiu com medo de não acordar a horas da consulta.
Anda na vida de médico há muitos anos! Desde que está nos psiquiatras, está em sofrimento… A cabeça não anda sossegada!”... Quando era jovem, olhou para uma mulher e sentiu o cérebro a cair desde o céu. Nunca mais teve descanso! Esteve na Guerra Colonial. Foi ele que causou, com o pensamento, o golpe de estado em Moçambique. Diz ter duas cruzes uma à frente e outra nas costas, que já conseguiu falar pelas costas e que consegue transportar-se para uma quarta dimensão. Acha que as pessoas podem ouvir o que pensa e que os americanos e os russos lutam por controlá-lo. Foi por isso que a avó, um dia, lhe bateu!

Não quer ficar internado. Está irritado por ter recebido uma carta do tribunal para tratamento ambulatório compulsivo.

Hoje não abriu a porta à equipa de entrega domiciliária de refeições e os vizinhos, que há mais de um dia o não viam, alertaram a GNR. Foi encontrado caído no chão com fezes e urina em redor. No transporte para a Urgência teve uma crise convulsiva.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um "raminho"!


Sr. Dr..! O meu pai sempre foi muito ansioso! Há uns anos, quando ainda estava bem, levava todas as noites para a cabeceira da cama um copo de água açucarada, com medo das hipoglicemias!  Ele ainda não tomava insulina, mas precavido como era, queria ter a solução à mão!
Um dia acordou a meio da noite com um formigueiro no braço. Com medo que aquilo fosse um sinal, deitou a mão ao copo, bebeu dois goles e voltou a deitar-se. Só que, em vez de melhorar, piorou. O formigueiro que inicialmente só sentia no braço, estendeu-se a toda a face e à língua.
Muito assustado, sentou-se na cama, acendeu a luz e chamou pela minha mãe, dizendo-lhe que estava a ter um “raminho”. Ela, assarapantada, deu a volta à cama para ver o que se passava. Foi quando viu o copo cheio de formigas e muitas espalhadas por aquele lado da cama!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Carta aberta o Pai Natal


Pai Natal: 

Tenho-te escrito com alguma regularidade nesta época em que toda a gente com acesso aos meios de comunicação social, disponibiliza uns minutos aos "dispensáveis" desta sociedade universal do comércio, que enriquece uma minoria e faz parecer a democracia um jogo dos poderosos.

Na tua época, os monges alegavam ser a pobreza “a primeira das bem-aventuranças” e tu, agora,  fazes despudoradamente o jogo do consumismo! Como é?! Até pareces acreditar que são os empresários que se movimentam de negócio em negócio nos mercados livres, que garantem o crescimento económico e a prosperidade mundial e que tudo o que os governos devem fazer é sair-lhes da frente, sem considerarem factores de constrangimento como o espaço geográfico, os recursos naturais e os ecossistemas frágeis que frequentemente, estão na génese da pobreza. 

Pela primeira vez na História, todos os povos da Terra têm um presente comum e sentem o choque dos acontecimentos que ocorrem no outro lado do mundo, amplificados pela imprensa e pelas redes sociais. A variedade está a desaparecer. Todos os povos se copiam e em todos os cantos do mundo se encontra a mesma maneira de agir, de pensar e de sentir.
Estimula-se a ambição, não tanto por uma necessidade real, mas pelo desejo de ultrapassar os outros, num “mimetismo apropriador” que faz desejar objectos, porque os desejos dos outros nos dizem que esses objectos se devem desejar, e muitas das grandes palavras da justiça, da lei, da ajuda aos fracos, da filosofia e do progresso da razão, são iscos inventados por políticos inteligentes para se imporem aos simples.

Ora é essa onda que tu surfas, entretido com vendas de inutilidades, em vez de te preocupares com uma alternativa ecológica que não nos desgrace o futuro.
Devias ter percebido que a tecnologia vai criar um número crescente de desadaptados que, mesmo que lhes seja dado dinheiro para “comprar”, se sentirão insatisfeitos por lhes faltar o reconhecimento social. A Inteligência Artificial e a Robótica (se o estar mundial se não modificar), deverão causar uma alteração brutal no mercado de trabalho, pois só haverá necessidade de empregar 20% da população para que as suas necessidades sejam satisfeitas. O conhecimento exigido para ser um membro produtivo já está a mudar e o sucesso do ensino não se irá medir pelo número de licenciados, mas pelo número de graduados relevantes no mercado de trabalho.

A maioria dos humanos incapazes de entrar nesta corrida poderá revoltar-se e, se dirigidos por homens frustrados, poder-nos-ão levar ao anarquismo ou a nacionalismos fundamentalistas de má memória. 
Eu sei que não se vêm alternativas plausíveis ao actual “credo” que diz que as classes médias criadas pelo capitalismo industrial originarão governos representativos, estáveis, responsáveis e capazes de prestarem contas, que a religião cederá o seu lugar ao laicismo e que as forças do irracionalismo serão derrotadas.

É por isso que te escrevo a pedir que uses o teu reconhecimento público (nas sondagens vais muito à frente do menino Jesus) e abraces uma causa que não nos desenraíze da Natureza e nos tire do limite de termos de rogar a Deus muita saúde para o carro, para ele não avariar. 
Mas não me perguntes como fazer, que eu, quanto mais leio, mais me confundo. Por um lado, acho que a ciência é o caminho para a nossa salvação como espécie, ao nos fazer entender que na Terra há uma multidão de outras espécies que têm papel fundamental no seu equilíbrio e que este nos tem sido favorável e que, qualquer outro, pode levar a ajustes onde não consigamos igual vantagem. Por outro lado, também penso que, quanto mais competências se exigirem para se ser o tal "membro produtivo" da nova sociedade, mais "dispensáveis" se criarão e mais frustração grassará no mundo! 

Tu, embora tenhas residência oficial no Pólo Norte, vais frequentes vezes ao Céu, e, de lá de cima, tens distância para analisar os futuros e avisar as elites arrogantes que há mais vida para além do capitalismo apátrida.
Procura o Maomé, o Buda, o Marx, o Adam Smith, a Nossa Senhora de Fátima, mais quem tu entenderes e vê se no dia 25 os sentas à mesma mesa com o tal "espírito de Natal", para impedir que os humanos se apropriem tudo o que há no Universo e dêem espaço às outras formas de vida!

É este o meu desejo!
Fico à espera!

Um abraço!
Oh! Oh! Oh!

sábado, 9 de dezembro de 2017

Serviço de Urgência


- A senhora é a esposa do Sr. José?
- Sim! Sou!
- Eu sou o médico que está a tratar o seu marido.
- Ele vai ficar internado?
- Não! Estou a pensar em dar-lhe Alta. Não tem doença que justifique o internamento! O que ele tem, está relacionado com o consumo crónico de bebidas alcoólicas. Ele, ainda ontem, bebeu!!!!.... O tratamento, como sabe, é deixar de beber. E isso pode fazer em casa!
- Sim! Mas hoje de manhã ele estava esquisito! Parecia que lhe faltava o ar! Foi por isso que eu chamei o INEM!
- Mas ele agora está bem! Não tem febre, o coração e os pulmões estão calmos e as análises são o que se espera num doente com a sua situação!
- Mas o Sr. Dr. podia interná-lo, para ele descansar o fígado! Da última vez que esteve internado, aguentou quase dois meses!

O Sr. José, veio transferido de um Centro de Saúde e, há horas, que ocupa uma maca do corredor do Serviço de Urgência. Já dormiu, já comeu, já fez análises e uma ecografia, já lhe mediram várias vezes os sinais vitais, e tirando as alterações hepáticas decorrentes de uma cirrose que, de há seis anos, o traz repetidas vezes ao Serviço de Urgência, não se identificou situação que justifique mais um internamento.

- A senhora há-de convir que, um hospital, é demasiado caro para "descansar" o fígado.
- É que, se ele vai para casa, volta a beber!
- Mas ele não pode ficar a viver no Hospital e, ao que parece, quando volta para casa, a família permite-lhe o consumo e ele estraga tudo o que aqui possa ter ganho!
- O que é que eu posso fazer? Se eu não lho dou, ele vai buscá-lo à adega e, se eu lha fecho, ele até é capaz de arrombar a porta. Olhe que ele nunca levantou a mão para mim, mas se eu não lhe der o vinho, não sei do que ele seria capaz!

Esta é a fase em que a conversa pode tomar vários rumos.
Estou num Serviço de Urgência, a horas em que não tenho apoio de Psiquiatria, nem do Serviço Social e em vésperas de um fim de semana prolongado.
O doente teve já sete internamentos em Medicina por complicações relacionadas com a "doença", foi já orientado para a Consulta Externa de Medicina Interna e de Psiquiatria e abandonou-as.

É fácil chamar ao alcoolismo, síndrome de dependência do álcool, catalogá-lo de doença, e atirá-lo para um Serviço de Urgência, ao mesmo tempo que nas comunidades se passa para o outro lado da rua quando se tropeça num bêbado e se alegam liberdades para que cada um faça da sua vida o que quiser. O Islão não é de intrigas. O álcool é uma abominação de Satanás. Proíbe-o e condena os seus prosélitos ao Tártaro (Alcorão 35:6). Não dá lugar para
um indivíduo fazer o que quer, se prejudica os outros. E os amigos, a família e os vizinhos são responsabilizados se não interferem quando uma pessoa se destrói ou prejudica a sua família.

Aqui tudo cai, desde o desgraçado que faz uma inscrição só para ter acesso a uma refeição, ao doente crónico que prefere este espaço "cosmopolita" ao de uma consulta regular no Centro de Saúde.
Quem tem de se dispersar entre situações críticas e casos sociais, desespera quando estes últimos o distraem das suas primeiras funções.

Este tem sete internamentos. Sete oportunidades deitadas ao lixo nos seis últimos anos. Vindas à Urgência, vinte e três.
Entretanto a idade não perdoa e outras maleitas já se lhe juntaram, deixando os médicos na indecisão de uma outra estar a dar sinal, pelo que lhe vão fazendo análises a tudo e mais alguma coisa, sempre que aqui entra.

Forço-me a justificar a Alta à pobre da mulher que não sabe lidar com a situação e se agarra ao que vê à mão. Sugiro-lhe que recorra ao Serviço Social da sua área de residência, falo-lhe dos "Alcoólicos Anónimos", dos filhos que estão emigrados, até do padre da freguesia. Entra-lhe por um ouvido e sai-lhe pelo outro. Ainda penso em contemporizar, mas é  dinheiro do Estado deitado fora. Ter este poder de dar o que não é nosso, dá mais responsabilidade. Caridade com o que é dos outros, qualquer um faz. Mas Caridade não é dar o osso ao cão. Caridade é partilhar o osso com o cão, e eu não estou aqui para substituir a Santa Casa.

- Minha senhora! O seu marido tem Alta. Leva medicação e uma carta para o médico de família!, afirmo, na tentativa de me ver livre deste problema que me retém, muito para além do desejável.

- O Sr. Dr. é que sabe! Mas se ele amanhã não estiver melhor, eu trago-o outra vez, que ele precisa de descansar o fígado!

...

E, nem de propósito, quando chego à maca onde o Sr. José aguarda a decisão, ele inicia uma crise convulsiva.

- Ai Jesus! Sr. Dr.! Ai que ele morre! Valha-me Nossa Senhora de Fátima! ....

Agora são dois em vez de um. Ela com uma crise histeriforme, ele a espumar no caminho para a Sala de Emergência.
...
- Dr.! A esposa do Sr. José está muito sentida consigo!, avisa-me a enfermeira.
- Deixe-a estar! Por favor, diga-lhe que o Sr. José, agora vai ficar cá na Sala de Observações, pelo menos até amanhã! E que pode ir embora! Veja se me poupa a mais um debate argumentativo, que eu já gastei o latim que trazia para hoje. Ela não vai entender que o tempo que demoraram todos os exames, mais o tempo que esteve na SUB que o referenciou, é suficiente para desencadear um síndrome de abstinência, no caso um "rum fit"

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

As palavras que não disse

Fui educado no respeito pelo outro e num ambiente em que se devem procurar as explicações para todos os fenómenos com que a natureza nos surpreende. Cedo desvalorizei a importância do Deus que me foi presente nos primeiros anos de escola, talvez por não ter sido assombrado com as situações dramáticas que afligiam (e afligem) grande parte da população de Portugal e do Mundo. Custa-me, pois, aceitar “orações” e “mortificações” a solicitar a intervenção divina em nosso favor e as práticas de um clero que, frequentes vezes, ao longo da História, tudo fez para manter o poder dos poderosos, por temer que a “heterodoxia” pusesse um fim à “ordem” que assumiam como única possível.
Até ao meu meio século de vida, sempre acreditei que o Homem é “bom por natureza” e toda a maldade que é capaz, tem origem nas circunstâncias em que é colocado e, nesse sentido, tendi a classificar-me como um “Humanista pouco convicto”, pois sempre recusei a pô-lo no centro de toda a vida neste planeta.
As novas religiões (que se apelidam a si próprias de Ideologias) – o Liberalismo, o Comunismo, o Capitalismo, os Nacionalismos e o Nazismo, apesar dos esforços missionários sem paralelo e das guerras mais sangrentas da História, também não me conseguiram converter, deixando-me sem sentido de pertença.

Quem viveu em sociedades fortemente marcadas pela adversidade, e não sentiu soluções para as provações que o acaso lhes pôs no caminho, optou, quase obrigatoriamente, por um Deus e por intermediários humanos, para agradecer as vitórias mais significativas da vida e para ter a quem recorrer nas aflições.

O Humanismo, a religião a que todos agora querem pertencer (mesmo que professem outras), quer que seja o Panteão (familiar ou colectivo) a dar as directivas à sociedade, mas, quando toda a população tem smartphones, já poucos perguntam orientações aos deuses ou à memória dos antepassados. As dúvidas são colocadas ao Mr. Google e os pedidos de ajuda ao Facebook. O relacionamento é feito “on line” e são raros aqueles que se reconhecem pelo cheiro da pele.
Os mais velhos lembram as “velhas glórias” enquanto os jovens viajam no mundo virtual dos novos deuses “made in” Silicon Valley, seguindo-lhes os gostos e objectivos que os fazem acreditar no Dataísmo, que mais não é que um Fé cega nos dados que o Mr. Google e as redes sociais fornecem, e que já constitui a nova religião do século XXI.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Tomara Que Chova



Tomara que chova,
Três dias sem parar,
Tomara que chova,
Três dias sem parar.

A minha grande mágoa,
É lá em casa
Não ter água,
Eu preciso me lavar.

De promessa eu ando cheio,
Quando eu conto,
A minha vida,
Ninguém quer acreditar,
Trabalho não me cansa,
O que cansa é pensar,
Que lá em casa não tem água,
Nem pra cozinhar.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

domingo, 5 de novembro de 2017

Workshop


A sala está composta. O público fora convidado com a devida antecedência e pressionado a comparecer. À hora marcada a plateia impacienta-se para ouvir os truques e malabarismos da modernidade de uma luminária que vem da capital.
Lisboa é longe e os caminhos da periferia são demasiado sinuosos para quem está habituado a grandes avenidas.  Passa uma hora quando chegam as eminências, seguidas pelo mágico e suas “partenaires”. Uma é loira, outra é morena, como os dois amores do Marco Paulo.

Feitas as apresentações e respetivas vénias, dá-se início ao espectáculo.
É a vez do artista. Rapaz novo, gaba-se do que fez e do que quer fazer. Dois passos para a esquerda e um à direita e ... Zás – à primeira pernada para trás, quem estava em cima passa para baixo e os da esquerda vêm-se agora no centro ou à direita. Pim! Já está!
Quem não se moveu espanta-se!.

Apronta-se de seguida para o segundo número, directamente dirigido ao coração da audiência. Fala sobre a ansiedade de querer e não saber por onde anda a família. Ligar para o telemóvel e não obter resposta! ... Três passos para a frente e uma para o lado e Zás! ... !! O público, baralhado, a tentar sintonizá-lo. Mais um passo em frente e ... Trás, Catrapaz!, e a estrela aponta o dedo a um paisano: - “- Você!”, depois a outro “- E você!?”, há que ouvir sentimentos e frustrações e prometer soluções! …. PUM! 

Tanta eloquência faz pasmar o mais pintado! É uma sumidade! Um mestre da comunicação! Pena o auditório só ter umas dezenas de lugares, e não um púlpito como o das Nações Unidas, porque ele … traz "UMA SOLUÇÃO À PROCURA DE UM PROBLEMA!"

Agora, depois de ter criado "O PROBLEMA", inicia novo passe de mágica e pede às partenaires que se levantem. A assistência hesita em bater palmas. São lindas e sorridentes, embora constrangidas, talvez por não se terem preparado para aquele número.

Finalmente o artista aproxima-se do "PROBLEMA" como quem salta para uma corda suspensa bem acima do estrado e bamboleia num equilíbrio, cada vez mais difícil. 
Fala de “PopUps”, de PEM, do triângulo doente – farmacêutico – médico. De uma lei que já está promulgada e que a todos espanta. Por fim vacila quando um pequeno burburinho se levanta e se apercebe que há gente a sair “à formiga”. É salvo pelo intervalo. 

Não houve apoteose, mas pouco lhe importa, que o cachet está garantido!.
Racionalizará: “-Esta gente da aldeia não entende os “Big Data”, nem as novas tecnologias!” e continuará convencido que caminha “para frente!”, porque em frente é sempre para onde estiver voltado, se não sentir oposição de quem gere o dinheiro dos impostos!

sábado, 4 de novembro de 2017

Kickboxing




Quando o conheci, já estava entrado na vida. Era irmão de um companheiro de trabalho e abrira recentemente um Ginásio, que era assim que, na altura, se denominava um "Fitness Center". Basicamente, ele tinha alugado uma garagem e dispusera, ao longo das paredes, uma meia dúzia de máquinas e halteres.

- Dr.! Tem de lá ir! Aquilo está cinco estrelas! Tem tudo! E, ainda por cima, fica a dois passos de sua casa! Insistia o colega, inconformado com as minhas repetidas recusas.

A curiosidade matou o gato e, também, para o não ter que o ouvir mais outras tantas vezes, dei por mim a justificar umas idas com a vida sedentária e, durante não mais de um mês, fui levantar pesos, puxar cordas e correr numa bicicleta estática.

Os clientes, àquela hora tardia, eram poucos. O habitual era eu só ter de partilhar os suores com o dono do Ginásio, que levava a vantagem de um dia inteiro a dar forma ao corpo, uma vez que era esse o primeiro objectivo daquele espaço, com poucas intenções a ganha-pão.

Eu entrava pelas 19:00h, quando o seu treino, era marcado por períodos de grande intensidade, a preceder o ciclo final de relaxamento.

Era um homem alto, de farto cabelo encaracolado mas, ao contrário do que seria de esperar, escasso de carnes. O Ginásio era o seu investimento para uma tão desejada alteração do aspecto físico. Fazia os exercícios em frente a um grande espelho, onde se media, na esperança de ver um músculo que lhe lembrasse um Rambo, um Schwarzenegger ou, no mínimo, um Mickey Rourke. O rosto afogueado e a camisola empapada assinalavam o empenho que punha na obra.

De vez em quando, a esposa, solidária, animava o espaço com música, enquanto corria no tapete, ou dava ordem ao material, para o dia seguinte. Era uma rapariga pouco faladora, pequena, bonita e de sorriso agradável. Vestia um fato de treino justo que lhe acentuava o corpo musculado e facilitava a agilidade felina com que discretamente se movia. Era uma luz no escuro daquela garagem a interrogar os porquês de uma garça se unir a um escadote cabeludo com pretensões a urso da floresta.

Da última vez que lá fui, ele treinava “kickboxing”, saltando em redor do saco de boxe pendurado do tecto, desferindo-lhe murros, pontapés e joelhadas. O cabelo desgrenhado escorria suor, a T-shirt vermelha totalmente colada ao corpo, criava um riacho que lhe descia pela costura mediana dos calções.

Entrei sorrateiro, e dei as Boas-noites! O atleta deu mais uma série de socos, como a mostrar todo o potencial daqueles ossos mal forrados, e respondeu:

- Boa noite! Dr.! Bem-vindo! Já não estava a contar consigo. Comece ali pela bicicleta, para aquecer! Dez minutos! Enquanto eu acabo o meu treino de hoje!
- Esteja à vontade! Que eu faço o programa do dia anterior e não vou necessitar de ajuda!

Tirou as mitenes das mãos, cumprimentou-me e voltou ao saco para mais umas dúzias de enérgicos socos e pontapés. Minutos depois, já com a toalha ao pescoço e garrafa de água na mão, olhou para as minhas dificuldades e decidiu-se por uns conselhos.
- Dr.! Tenho ali umas latas de produto que fazem maravilhas! Têm a força da proteína. O Dr. também devia tomar! Eu agora tomo-as para ganhar volume mas, daqui a três meses, vou ter de começar com outras para obter definição!

Parei de levantar os pesos.
- Obrigado! Eu não pretendo entrar em concursos! A ideia é compensar o muito tempo à secretária. Com um jogo de futebol de cinco, à sexta e uma hora aqui à terça, se fugir às jantaradas, talvez chegue aos oitenta a tomar conta de mim! respondi, a evitar um discurso técnico, que se oporia radicalmente ao seu objectivo, e que não teria qualquer eficácia naquele ambiente.

Retomei os halteres para mais uma série de braços, cumprindo o plano colado numa das paredes, e o meu “personal trainer” voltou ao kickboxing, para um final apoteótico de sopapos e pernadas, no meio de gritos, impropérios e Uuuhhhs, em crescendo, até, em plena exaustão física e num climax exaltado, gritar na direcção do seu reflexo no espelho:

- Eu quero ficar um BOOOOOIIIIIIIIIIiiiiiiiiiiiiiiii !!!!!!!!!!! … Eu quero ficar um BOOOOOIIIIIIIIIIiiiiiiiiiiiiiiii !!!!!!!!!!!



Creio que Deus o não ouviu e eu, talvez com medo do contágio, pus fim à minha experiência de culturista amador!

sábado, 28 de outubro de 2017

Acrocianose ?



Tem 34 anos. Está grávida de vinte e quatro semanas e há dois dias que nota as unhas e as pontas dos dedos azuis, com agravamento nocturno.

Veio ao Serviço de Urgência e, na Triagem de Manchester, é referenciada, com cor Amarela, para Obstetrícia. Tem sinais vitais normais e está tudo bem com o bebé. Exame ginecológico normal. Ecografia normal. Cardiotocografia normal. É pedida observação por Medicina Interna.

Está consciente e colaborante. Nega conhecimento de qualquer doença crónica. Tem as unhas das mãos e extremidade distal dos dedos com tom azulado, sem sinais de hipoperfusão sanguínea. Nega agravamento com o frio. Tem as unhas e a extremidade distal dos dedos dos pés com coloração normal.
- Minha senhora! A senhora não pintou as unhas de azul?
- Não! Pintei-as há uma semana, e usei um verniz branco!
- Vamos ter de limpar uma unha, para ver o que acontece! Mas vai ter de esperar uma hora, porque não há acetona no Serviço de Urgência e o Armazém só abre às 14:00h!

Está acompanhada por uma filha adolescente, que já mostra sinais de impaciência. Sai, inconformada, enquanto eu faço os registos no computador.
Nem cinco minutos depois, bate à porta do consultório.

-Dá licença!?
- Faz favor! Então que há de novo?
- A Dra. deixou-me a pensar e, de facto, anteontem à tarde, estive a lavar um édredon azul e foi só à noite que a minha filha notou que eu tinha as unhas azuis. No dia seguinte de manhã, elas estavam mais clarinhas. Mas o édredon não ficou bem lavado e voltei a lavá-lo! Agora, como me disse que ia esperar tanto tempo pela acetona, pedi à enfermeira um pouco de gaze e lavei os dedos com álcool, água quente e sabão e raspei uma unha. Desapareceu tudo! …. Posso ir embora?