segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Futsal - Campeões Europeus




Cada estrela de oiro
Disse a quem a escute
Foi um anjo loiro
Que me deu um chute
A jogar com calma
Sem perder a fé
Teima e leva a palma
Jogador com alma
Rebentava o mundo
Se lhe desse um pontapé

Saia quem tem pança
Viva o sol em brasa
Quem tem massa vai a França
Quem não tem ficou em casa
A Maria Rita, hoje ressuscita
Hei-de a ver no desafio
Com um grãozinho na asa

Se a selecção trabalha
Como eu quero
Agora é que não falha
Nove a Zero





Heróica e lusitana gente, vamos em frente mas combictamente...

Va lá cambada infantes desportistas, homens de conquistas
Povo que és o meu
Bola redonda e onze jogadores em frente
Sem temores que as tácticas dou eu
Tragam as gaitas, as bandeiras e a pomada
Vamos dar-lhes uma abada, ensinar-lhes o que é bom
Vamos mostrar a esses escarafunchosos
Por momentos gloriosos
Quem é a nossa selecção

Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é futebol total
Deixem-se de tretas, força nas canetas que o maior é PORTUGAL
Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é futebol total
Deixem-se de tretas, força nas canetas que o maior é PORTUGAL

É atacar agora e defender para fora
Eles são toscos e nem dão para aquecer
Suar a camisola e até jogar sem bola
E disfarçar para o árbitro não ver
No intervalo, solteiros contra casados, fandangos, chulas e fados
Para aprenderem como é
Durante o jogo, qualquer caso lá surgido
Só pode ser resolvido à cabeçada e ao pontapé

Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é futebol total
Deixem-se de tretas, força nas canetas que o maior é PORTUGAL
Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é futebol total
Deixem-se de tretas, força nas canetas que o maior é PORTUGAL

Os portugueses já provaram muitas vezes
Saber ser uns bons fregueses das grandes ocasiões
Nesta jornada nem que seja à pantufada
Nós estaremos na bancada muito mais de dez milhões
Força Portugueses!

Viva Portugal, Portugal, Portugal...
Viva Portugal, Portugal, Portugal...

Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é futebol total
Deixem-se de tretas, força nas canetas que o maior é PORTUGAL
Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é efectibamente
Futebol total
Temos de ter coragem, muita força
Pensem nos vossos antepassados có nada
Muito orgulho, muita vivacidade
E vai... e um, dois, e um, dois...
E vai lá... e cruza... e é golo, e é GOLOOOOOOOOOO

Bamos lá cambada, todos à molhada que isto é futebol total
Deixem-se de tretas, força nas canetas que o maior é PORTUGAL

Composição: Carlos Paião

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Lembranças do Olimpo (33)


Hipólito respondeu positivamente ao convite para Reunião Anual da Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros. Recebera o programa e conseguira identificar cinco dos nomes que lá apareciam: o de Yuval Noah Harari, o de Henry Kissinger, o de Dwight Eisenhower, o de Anwar Sadat e o de Mikhail Gorbachev, os restantes nada lhe diziam.
Como destes, uns estavam vivos e outros mortos, previu que ali tudo poderia acontecer.
O tema da sua mesa era “O que os deuses antigos pensam do futuro do Homem na Terra”, mas o que o estimulava era poder assistir a sessões que já marcara no Programa como – “O futuro em 2050!”, ou “Quem decide os futuros possíveis!”
Recebeu pela Net o voucher para a viagem e Hotel e a indicação de que, à sua chegada ao aeroporto Aeroporto Internacional Ben Gurion, tudo o que necessitaria para a sua estadia, lhe seria entregue.

Há alturas na vida em que o tempo passa sem disso darmos conta e, num repente, Hipólito encontrava-se em Massada, meia hora antes da hora de início da sessão de abertura.

Estava um dia ameno. Uma brisa vinda do Mar Morto abanava as bandeiras colocadas num dos seus topos. O médico identificou rapidamente a de Israel, a dos EUA, a da China, a da India, a da União Europeia, a da Rússia e a do Irão. Todas as outras, por não estarem totalmente desfraldadas, não permitiam identificação. Nos terreiros, uma meia dúzia de congressistas dirigia-se para a zona das ruinas, onde uma única nuvem azulada, impedia a sua completa visualização. Junto às grades, a sul, estava instalado o que lhe pareceu ser um ponto de “catering” e foi para aí que se dirigiu, na esperança de um café.
No trajecto um segurança interceptou-o e sugeriu-lhe que se dirigisse rapidamente para o recinto da Reunião, pois não seriam cordiais atrasos nas entradas.

Hipólito acelerou o passo na direcção às ruínas, quando um som de dez trombetas alvoroçou a manhã. Do nada, irromperam seis anjos dourados, seguidos de uma quadriga triunfal de alvos cavalos transportando uma figura humana transparente vestido de T-shirt branca e jeans azuis, empunhando um tridente de aço cintilante, que penetraram na nuvem azulada. Hipólito pasmou ao ver um deus em indumentarias que mais lembravam um geek de meia idade.

Entrou na sala já cheia e rapidamente alguém lhe pegou no braço e levou para um lugar junto à coxia. Olhou para o lado e reconheceu o Harari. Hipólito, sentiu-se honrado como lugar. Já não era a primeira vez que se tinha sentado ao lado de alguém importante. Uma vez em Lisboa, no teatro, ficara ao lado do António Guterres e tinha-o cumprimentado com um sorriso aprovador. Agora não queria fazer por menos e estendeu-lhe a mão. O Harari levantou-se, meio espantado, e cumprimentou-o, enquanto o médico lhe dizia: - Eu devia ter lido os seus livros no início da minha vida adulta! Só que você, nessa altura, ainda não tinha nascido! O historiador sorriu, agradeceu e voltou a sentar-se.

A sala, não tinha mais de cem lugares, divididos em dois quartos de círculo. Naquele onde se sentou estavam pessoas como ele, umas com trajos tradicionais, a maioria vestindo desportivamente à ocidental. No outro quarto de círculo, as figuras humanas eram transparentes e de contornos mal definidos. Todos tinham diante uma pequena mesa de apoio, com um bloco de notas e um lápis.

Na presidência, o personagem que vira entrar, mantinha-se, de pé, à frente de um enorme écran que passava imagens de Galáxias, Buracos Negros, estrelas e satélites artificiais.

Soaram de novo as trombetas e o geek, depois de um curto agradecimento de boas-vindas, iniciou o discurso:

- Estamos nesta sala para tratar do futuro da Humanidade, que devemos entender como em risco de extinção. É nossa obrigação achar soluções para que tal não aconteça num futuro próximo, pelo que se torna necessário definir quais as crenças a implementar para que o Homem continue e acreditar em poderes sobre-humanos que o levem a fazer as coisas certas, mesmo que baseados em razões erradas.
A evolução tecnológica e a globalização, vieram para ficar. Já não há espaço para deuses eremitas ou que façam do sofrimento um “must”! Há que pôr a tónica em valores que não estimulem o conflito físico. Deuses que obriguem a comportamentos socializantes, sem deixarem de incentivar a valorização pessoal.
...

Hipólito cutucou o braço do Harari e segredou-lhe: - Conhece-o?

- Sim! Disseram-me que é meio irmão da Pandora e que foi construído, recentemente, pelo mesmo processo que ela. Reparou na mochila dele?! Queira Zeus que contenha os antídotos para os males que a caixa da irmã deixou neste mundo! Chamam-lhe Phoebe, o Radiante. Actualmente vive em Shanghai, mas não há garantia de que se mantenha ali indefinidamente, que ele é defensor da "Labor Mobility"

Entretanto aquele pequeno discurso tinha terminado e o palco foi invadido por várias figuras humanas, entre as quais estava o Gorbachev. Ajustaram-se os microfones e o presidente da mesa, que lhe pareceu indiano, apresentou o Henri Kissinger como primeiro palestrante, salientando que ele iria falar verdade e não dizer as coisas mais convenientes, como habitualmente fazia quando estava na política activa.
O estadista avançou até a um pequeno púlpito que se situava ligeira à esquerda do palco.
Hipólito pegou no lápis para anotar, no bloco, o pensamento político do país mais poderoso da actualidade:

O direito de dominar é um princípio primordial da política externa dos EUA encontrado em quase toda a parte, embora normalmente escondido por detrás de termos defensivos.

Os EUA são proprietários, de pleno direito, do mundo, e são, por definição, uma força ao serviço do bem.

"Seremos multilaterais quando pudermos, unilaterais quando a isso obrigados! (Bill Clinton)

Os EUA têm o direito de recorrer ao uso unilateral do poder militar para assegurar o livre acesso a mercados fulcrais, fontes de abastecimento de energia e recursos estratégicos.

Os arquitectos do poder dos EUA têm de criar uma força que possa ser sentida, mas nunca vista. O poder preserva a sua força quando mantido em segredo; uma vez exposto, começa a dissipar-se.

É necessário manter uma força militar de dimensão idêntica ao somatório do resto do mundo e bastante mais avançada quanto à sofisticação tecnológica!

As sociedades complacentes, autoindulgentes e brandas estão prestes a ser varridas juntamente com os detritos da história. Apenas as fortes, terão alguma possibilidade de sobrevivência.

Os EUA têm o exclusivo estatuto de imunidade ao sistema legal internacional e há legislação aprovada no Congresso que autoriza o presidente a fazer uso das forças armadas para “salvar” qualquer norte-americano de um eventual julgamento em Haia.

Houve quem acreditasse que por via do diálogo e da consolidação gradual de uma relação de confiança, seria criada uma irreversível dinâmica de paz que pudesse desembocar numa solução. O problema desta visão é que a questão não reside na confiança, mas no poder. O processo facilitador mascara essa realidade. No final, os resultados que podem ser alcançados por intermédio de um débil grupo de terceiros, não vai além do que o grupo forte permitirá.

Há muitos que estão convencidos de que os primeiros beneficiários do desenvolvimento dos recursos de um país devem ser as pessoas desse país, esquecendo-se dos “investidores”.


O orador terminou. Metade do público levantou-se para aplaudi-lo e um pequeno grupo pateou!
Hipólito virou-se para o Harari: – Tanta clareza até atordoa!
O historiador encolheu os ombros com ar de quem entende quem está decidido a manter o poder: - Se não forem estes, outros o farão! O problema são as opções, que os pressupostos são iguais!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Lembranças do Olimpo (32)



A vida é como é, e, mesmo que tenhamos um forte “wishfull thinking”, a realidade irá, mais tarde ou mais cedo, bater-nos à porta, para nos tirar o sorriso de “dreamer!”
Necessitamos de uma esperança de felicidade no futuro, principalmente quando vivemos enleados em problemas que não dependem de factores que controlamos, e esquecemo-nos que muito dessa “felicidade” está dentro da nossa cabeça e que seria mais fácil se reduzíssemos aos desejos.

De qualquer modo, sendo eles muitos ou poucos, a felicidade está em superar os desafios que aceitamos, embora frequentes vezes sejamos levados desejar o que nada tem a ver connosco, para, no fim, sermos vítimas deles, que não é um nem dois que morre jovem ao volante de um bólide topo da gama, nem na viajem de sonho aos confins do mundo ou até, que casa com a mulher mais vistosa da terra, para o atormentar o resto da vida.

O ambiente que queremos construir obriga a responder a afirmações dentro do grupo, e o “grupo” não é tão “livre” nas escolhas como pode parecer aos menos atentos. Há uma montanha de pressões a orientar os seus desejos, desde a publicidade mais inócua, às mensagens veiculadas através das escolas e das instituições, que visam direcionar a “populaça”, para o que interessa às elites que condicionam as políticas dos governos. A “fabricação de necessidades” e a “engenharia do consentimento”, são as novas artes da Indústria das Relações Públicas, para moldar opiniões, atitudes e percepções, de modo a que os cidadãos se coloquem no lugar de “espectador não participante”, e  “a minoria inteligente se proteja do ruído da carneirada desnorteada e dos intrusos ignorantes e metediços”.

Eram estes pensamentos que estavam por detrás da aceitação de Hipólito, para ir a Massada. Aquela reunião soava-lhe a movimento com pretensões a tomar conta do futuro da maior parte da população do mundo. Tentara acertar-se com a História Contemporânea. Lera o Kissinger e o Chomsky, para ter a noção dos opostos e mais umas coisas dentro das políticas de saúde para o caso de alguém aproveitar a sua condição de médico de um país periférico com um Sistema Nacional de Saúde, para lhe fazer perguntas.

A complexidade da natureza humana sempre o surpreendera. Tivera um circulo de relacionamentos com quem tivera complacência, até se espantar com a trafulhice de que muitos eram capazes a troco de uns míseros euros ou por uma pequena vantagem. Tentava manter os amigos mais antigos e alguns jovens que ainda resistem àquelas tentações que resolvem dois problemas e criam dez!

A velha máxima de que o homem faz todo o mal que pode e todo o bem a que é obrigado, era uma das suas preferidas. Fazia o seu trabalho com a sensação de que podia alterar o estar de uma meia dúzia de pessoas, mas perdera qualquer veleidade de fazer filosofia sobre o que quer que fosse, para além disso.

Admirava a ousadia dos visionários que se dispunham a orientar as massas para amanhãs cantantes, ignorando as consequências a curto, médio e longo prazo das suas soluções, e mantinha a opção de defender a diversidade organizacional e não uma única via como o fazem os “grandes líderes”!

Lembrava o mal que a ignorância pode causar, e fazia analogias com as salamandras, um bichinho que até há bem poucos anos, não tinha qualquer importância para a Humanidade, mas que por se ter descoberto a sua capacidade em regenerar, na totalidade, os membros, estava a ser alvo de estudo para tentar entender como obter iguais resultados no homem.

Quanto fica por desvendar, no que desaparece?

Os radicalismos, mesmo que tenham a melhor das intenções, são exterminadores e limitam as opções ao conhecimento e esse, era o seu verdadeiro Deus.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Lembranças do Olimpo (31)



Passaram mais de duas semanas quando Hipólito se disponibilizou a responder ao convite para o Congresso em Massada. A vida desviava-o para outros afazeres e os dias curtos cansavam-no, a ponto de às dez da noite, já o corpo lhe pedir descanso. Até aquela hora vespertina que sempre guardara para passar os olhos pelas revistas que regularmente lhe chegavam a casa, estava a aguardar melhores dias.

Antes de sentar ao computador, foi à cozinha, passou a mão pela chaleira, para se assegurar que ainda tinha chá quente, quando sentiu um borbulhar de água e viu aparecer no ar um fumo branco que lentamente esboçou uma figura humana.

- Hei! Lá!, espantou-se Hipólito, olhando a nuvem que lentamente escurecia. - Por esta é que eu não esperava! O Génio da Lâmpada!? Vens mesmo a calhar!, disse enquanto um sorriso lhe rasgava o rosto.

Esperou uns segundos até que ela ganhasse a forma definitiva e analisou-a melhor. Tinha uma barba branca de seis meses, um turbante preto cuidadosamente enrolado na cabeça e umas sobrancelhas negras ameaçantes a cobrir o olhar penetrante. Vestia uma camisa com colarinho “mao” e por cima uma capa castanha impecavelmente lisa.

Ainda Hipólito não tinha assumido o seu erro, quando ele se lhe dirigiu, com voz autoritária:

-Eu não sou um Djinn! Sou a alma do aiatola Khomeini! Por isso atem-te, que o forno não está para rosquilhos!...

Há equívocos que se podem pagar caro. Chamar Génio a um aiatola é um insulto para o mais alto dignitário na hierarquia religiosa do Islão xiita, descendente direto de Maomé e expoente máximo do conhecimento e do discernimento. E ainda por cima ao Khomeini, que pôs ponto final a 2.500 anos de monarquia no Irão!

Era para estar no Paraíso, refastelado. Aparecer-lhe assim trinta anos após a morte, saído de uma chaleira, era de arrepiar os cabelos. Talvez a família se tivesse esquecido de lhe colocar, debaixo da língua, a moeda para pagar a Caronte e, por isso, a sua alma não atravessara o rio dos Infortúnios. O Alexandre, o Grande, andou por ali e deve ter deixado lá a tradição.

Aquela aparição apanhara-o desprevenido. Mediu a situação e, depois de um longo suspiro, e de um Cruz! Credo! Maria Santíssima!, dito para dentro, engoliu em seco e justificou-se:

- Calma! Não contava com visitas a estas horas da noite! E o tipo de encenação que escolheste, confunde qualquer um!

A figura manteve o ar austero. Sentou-se no tampo do armário da cozinha e explicou-se:

-Se estavas a pensar que eu era um génio, que te ia fazer as vontades, muito ao imaginário ocidental, tira o cavalinho da chuva, e muda o discurso! Pelo menos enquanto estiveres na minha presença! Deves saber o tratamento que damos aos infiéis! E não penses que por estares em Portugal te safas. Olha que uma "fatwa" abrange todo o planeta!

A coisa estava negra. Aquela alma penada, que não dera descanso ao Ocidente, durante os dez anos que estivera no poder no Irão, estava ali com alguma intenção, a que não devia ser alheia a sua última conversa com Moisés.

Hipólito convidou-o para dentro da sala e sentaram-se na mesa de jantar. Depois, procurou colocar tom na sua voz de rádio e, com a maior delicadeza, ousou perguntar-lhe ao que vinha. A alma do Khomeini, sintonizou-se e respondeu:

- Como deves saber, desde a Segunda Guerra Mundial que os Estados Unidos ditam os termos por que se rege o discurso global, embora nas últimas décadas tenham partilhado o poder, com os países do G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) e as Instituições por eles controladas, como o FMI, … no contexto de um verdadeiro governo mundial. São as elites económicas que têm verdadeiro impacto nas políticas governamentais, enquanto a vasta maioria da população é ignorada e excluída do sistema político. A era neoliberal com a sua economia cada vez mais monopolizada, e com as figuras políticas a representarem amplamente os interesses das predatórias instituições financeiras e das multinacionais protegidas, fez com que uns poucos adquirissem o estatuto de “donos disto tudo”. Ora é contra este estado de coisas que eu continuo a lutar, mesmo depois de morto! A revolução iraniana de 1979, foi o início da Revolução Islâmica, que se quer mais ampla.
O Mapa do Médio Oriente do século XX é uma criação falsa e anti-islâmica dos imperialistas e dos apetites de soberanos tirânicos, que apartaram os vários segmentos da “ummah” (comunidade) islâmica, para criar nações artificiais, sem qualquer base na lei divina.

O médico ouviu e arriscou interromper:

- Eu já conhecia o proselitismo islâmico, mas o que fizeste foi usar o Estado como arma instrumental de um conflito religioso. Se os aiatolas se intitulam Líderes Supremos da Revolução Islâmica, da ummah islâmica e do povo oprimido, não são apenas figuras nacionais, mas autoridades globais.

Hipólito mantinha a voz calma de um repórter da CNN a entrevistar um senhor da guerra no seu território. Sentia que aquela alma não estava em paz, que almejava uma ordem mundial fundamentada nas suas crenças, e avançou a pergunta:

- E foi por isso que reivindicaste autoridade jurídica mundial para emitir uma fatwa pronunciando uma sentença de morte contra Salman Rushdie, cidadão britânico de ascendência indiana muçulmana, pela publicação na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos dos “Versículos Satânicos”, livro que consideraste ofensivo?

A alma do aiatola, enfunou e desenfunou, como que um respirar fundo a englobasse na totalidade e respondeu:

- Esse facto foi um erro de principiante! Devíamo-lo ter feito sem o pronunciar, como fazem os Estados Unidos, com aquilo a que chamam guerra contra o Terrorismo. Só a título de exemplo e só para falar na América Latina, lembro que uma semana depois da queda do muro de Berlim, seis eminentes intelectuais latino-americanos, todos eles padres jesuítas, foram alvejados na cabeça por ordem directa do alto comando de El-Salvador. Os perpetradores pertenciam a um batalhão de elite armado e treinado por Washington. Mas foram inúmeras as execuções de dissidentes políticos, não violentos, nessa região, consistentemente apoiados ou iniciados pelos Estados Unidos entre 1960 e 1990, para travar a terrível heresia proclamada no Concílio Vaticano II, em 1962, que propunha a “opção preferencial pelos pobres!”, desde o golpe de Pinochet em 1973, no Chile, à mais cruel das ditaduras – a ditadura militar que se instaurou na Argentina – o regime predilecto de Ronald Reagan.

O médico lembrou os honrados dissidentes que motivavam muitas das suas preocupações, quer eles se situassem a Ocidente ou a Leste, a Norte ou a Sul, à mercê daquela mãozinha que, escondida, “define” quem está a favor da “civilização” e quem nos quer levar para o “obscurantismo”, esquecendo que o nome de Nelson Mandela só foi retirado da lista oficial de terroristas do Departamento de Estado dos EUA, em 2008, e que vinte anos antes era, segundo o Pentágono, o líder criminoso de um dos mais conhecidos grupo terroristas do mundo.

Mas o Irão (como foi baptizada a Pérsia, em 1935), era um caso mais actual, de uma governação que se considera divina, a fazer lembrar os tempos da velha Inquisição. E lembrou Heródoto, historiador grego do século V a.C., que descrevia a autoconfiança dos persas, que se consideravam o centro das realizações humanas, do seguinte modo: “Acima de tudo, honram-se a si mesmos, mais do que os que com eles convivem, ou os que convivem com estes, e assim sucessivamente, com uma progressão honorífica em função da distância. Têm em menor apreço aqueles que têm a habitação mais afastada da sua. É assim porque consideram que são, em tudo, o melhor que a humanidade tem e que os outros têm um grau de virtude proporcional à sua proximidade: os que vivem mais longe são os mais destituídos”.
O seu sentido de identidade manteve-se ao longo dos séculos, bem como a sua confiança na superioridade cultural. A Pérsia – núcleo demográfico e cultural do Xiismo, optara por esta forma de diferenciação do Islão, como forma de contestação ao Império Otomano que era sunita, e colocou a tónica nas facetas místicas e inefáveis da verdade da fé. Mas quanto à questão da necessidade de derrubar a ordem mundial vigente, islamitas de ambos os lados da trincheira – sunistas e xiitas – estão geralmente de acordo.

Enquanto todo este emaranhado se lhe passava pela cabeça, o médico retomou o diálogo, indo directamente ao assunto:

- Mas o que te traz aqui a Portugal, a esta cidade onde não há vestígio da cultura islâmica?

- Tu!, disse, enquanto se levantava e deambulava pelo tapete. – Sei que foste convocado para uma Reunião em Israel, para falares das tuas experiências com os vários deuses, que dizem terem regido o mundo, e vim aqui para te dizer que “Não há outro deus além de Allah e que Muhammad é o seu profeta!”. Que haverá paz apenas para aqueles que seguem o caminho verdadeiro. Que só o Islão é capaz de libertar os povos oprimidos e que é fundamental que se lute contra a América, o saqueador mundial e as sociedades comunistas materialistas da Rússia e da Ásia, bem como contra o sionismo de Israel. Que o conflito com o Ocidente não é uma questão de concessões técnicas específicas ou de negociação de fórmulas, mas um confronto sobre a natureza da ordem mundial.

-Eu?!!! Estás muito enganado! Levantou-se também Hipólito, apontando-lhe o dedo. - Eu não estou na política!!!. Ouço o que me dizem! E, se queres saber, acho que as comunidades humanas podem ser felizes com muitas matrizes, mais ou menos religiosas, desde que haja capacidade em as fazer crer que há justiça, que os poderosos não utilizam o poder em beneficio próprio e cuidam minimamente dos desprotegidos da sorte. Ora essas matrizes governamentais, mais tecnológicas ou mais abstratas, podem ser lideradas por reis, presidentes, triunviratos ou qualquer outro esquema onde se entendam os equilíbrios como dinâmicos, pois o que hoje responde às necessidades de um povo, não se mantém imutável e, mesmo uma religião, se não evolui, morre!.
Eu entendo a tua animosidade contra os Estados Unidos! Não entendo é como tens a vaidade de dizer que tens o conhecimento e o discernimento para os substituíres! Eu, prefiro o “Iberian way of life”, com tudo o que tem de mau, ao “Afghan way of life”, só porque respondo melhor a esta matriz cultural. Percebes??? Eu, em minha casa, sinto-me em casa! Ter de aprender a viver como tu achas que eu devia viver, não me agrada nada! Prefiro lutar para corrigir as imperfeições do meu sistema, que andar aos tombos dentro do teu!
Vai para dentro do púcaro, que não tens nada com a minha vida! És uma alma penada que não trazes nada de novo! Queres substituir aquilo a que chamas tirania, por outra de igual sentido ou pior! Quando a governação é considerada divina, toda a dissidência é tratada não como oposição, mas como blasfémia e eu já paguei para esse peditório!

E dito isto, abriu a tampa da chaleira e a alma do Khomeini, qual cãozito assustado de rabo entre as pernas, enfiou-se por ali abaixo sem qualquer ruído que revelasse a sua importância histórica.

Hipólito respirou fundo! Esta coisa dos deuses e dos seus mandatários na Terra, tem muito que se lhe diga. Um tipo não está seguro de nada. Já não são só os esquizofrénicos que ouvem vozes vindas dos Céus. Há muita gente na política que se diz com orelhas capazes de interpretar os sons que vêm do espaço e transformá-los em linguagem religiosa, e esse é um problema que tem milénios.

O médico subiu para o quarto. Lavou os dentes, tirou a roupa, vestiu o pijama e enfiou-se na cama. Fora um fim de dia atribulado. Felizmente que a alma perdera a convicção. Caso lhe mandasse uma fatwa, faria como o Salmon Rushdie. Pediria protecção à Scotland Yard.

A resposta ao convite ficava para outro dia!

domingo, 21 de janeiro de 2018

sábado, 20 de janeiro de 2018

Preâmbulo de um acordo comercial entre os Estados Unidos e um dos Xás da Pérsia da dinastia Safávida (1501–1736):



O Presidente dos Estados Unidos da América do Norte e sua majestade tão celebrada quanto o planeta Saturno, soberano a quem o sol serve como modelo, cujo esplendor e magnificência são iguais aos dos céus, sublime soberano, monarca cujos exércitos são numerosos como as estrelas , cuja grandeza lembra a de Jenishid, cuja magnificência iguala a de Dario, herdeiro da coroa e do trono dos Kayanidas sublime imperador de toda a Pérsia, estando ambos igualmente e sinceramente desejosos de estabelecer relações de amizade entre os dois governos, que pretendem fortalecer mediante um tratado de amizade e comércio, reciprocamente vantajoso e útil aos cidadãos das duas altas partes contratantes, nomearam para o efeito seus plenipotenciários ...

in A Ordem Mundial de Henry Kissinger 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Lembranças do Olimpo (30)


Era Inverno. Os dias pequenos e a instabilidade do tempo, não estimulavam saídas. Hipólito aproveitava o domingo para concertar aquelas pequenas coisas que se arrumam a um canto à espera que uma disposição nos leve a medir com dificuldades que se têm por garantidas, pois a “obsolescência programada” é uma realidade, e aquilo que pensávamos ser para lavar e durar, acaba ao fim de meia dúzia de meses de uma utilização normal.

Pegou num candeeiro de mesinha de cabeceira e procurou numa caixa onde guardara uns antigos que herdara de uma sua avó, um abajour para substituir o original que estava partido. Não serviam. Voltou-se então para a torradeira. Revirou-a. Os dois parafusos embotados eram impossíveis de desapertar. Estava a perder tempo. Decidiu-lhe o destino - reciclagem do material eléctrico.  Limpou os bornes a uma lanterna, mudou-lhe as pilhas e acendeu. - Graças a Deus!, e falou com o aspirador, antes de lhe tocar: - Espero que não me deixes ficar mal...!,  e o aspirador fez-lhe a vontade. A substituição da ficha resolveu o problema.
Estava a medir o vidro de um quadro, quando sentiu um toque de um Mail no smartphone. Retirou-o do bolso, e leu:

- Caro Dr. Hipólito:

A Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros, irá efectuar brevemente a sua Reunião Anual, sob o tema – O Futuro e as Crenças!

Tendo chegado ao nosso conhecimento que, nos últimos tempos, o Dr. tem recebido, frequentes visitas de deuses no activo e até de alguns já reformados, tínhamos o maior prazer que partilhasse connosco algumas das suas experiências, numa das mesas redondas da nossa Reunião, ficando a tema da sua palestra inteiramente a sua disposição.

Todas as despesas com deslocação, alojamento e alimentação ficarão a cargo da Organização. De acordo com as normas da nossa Sociedade, não há “Fee” para os intervenientes, incluindo os convidados.

Sem mais,

Atenciosamente,


Hipólito leu as datas e o local – 14 de Maio, Massada – Israel, uma assinatura indecifrável e por baixo “Benjamin Cohen”, Presidente da 70ª Reunião da SUNF.

Meteu o smartphone no bolso e sentou-se. Como seria possível que alguém soubesse daqueles seus encontros, se tudo se tinha passado em locais recatados, sem a presença de qualquer outro humano? Olhou em volta na procura de algo estranho, enquanto congeminava em quão pequeno está o mundo e na entrada triunfal que alguns dos deuses quiseram fazer nas suas aparições. Mas o que lhe parecia mais provável, era aquele mail ter partido de uma organização do tipo da NSA, da CIA ou do KGB, que esses estão em todo o lado.

Aparentemente eram os judeus os primeiros a questioná-lo e faziam-no de um modo “elegante”, convidando-o para uma Reunião com gente preocupada com as crenças humanas e com o modo de os levar a fazer coisas úteis mesmo que para isso se lhes tenha de dar razões erradas.
O desafio era claro. Quem estava na crista da onda era a gente do dinheiro. Uma reunião no deserto de Israel, no lugar mítico de Massada, onde Herodes “O Grande” construiu um palácio e uma fortaleza “inexpugnável”, até os romanos, no ano 70, o destruíram, depois dos seus defensores se suicidarem para não serem capturados. E quem seriam estes judeus? O Mark Zuckerberg do Facebook?, o Sergey Brin, da Google?, o multimilionário George Soros? o Jared Kushner, genro de Donald Trump?, ou algum dos banqueiros que mandam no mundo, das famílias Rothschild, Lehman Brothers, Goldmans-Saches, ou dos Kuhns,  dos Loebs, ????…  
Antes de aceitar o convite, iria enviar uma carta a perguntar se quem estava por detrás era gente viva ou mortos influentes.
O nome do presidente era “sonante” - Benjamin Cohen. Bin-yamín: ben - “filho”, yamin, “mão direita” - "filho do lado direito", “o bem-amado”. Cohen indica que tem ancestrais sacerdotes no Templo de Jerusalém. Nada mal! Um judeu que, com grande probabilidade, tem registo do DNA para assegurar a sua origem genética.

Olhou em redor como se sentisse vigiado dentro da sua própria casa. Confirmou que o mail não continha nenhum anexo e pesquisou na Net “Sociedade Universal dos Novos Feiticeiros” sem qualquer resultado significativo.
Podia ser uma brincadeira. Mas quem? Se não contara a ninguém as suas entrevistas com os deuses! Tinha de haver ali uma estrutura com capacidade de vigilância suficiente para ter acesso aos seus movimentos. Tentou ligar para o seu amigo Saldanha, que vivia em Macedo de Cavaleiros e que era filho de um judeu antigo, na esperança de ele lhe poder dar alguma pista, mas ele não atendeu. 

Tentava entender  aquele convite, quando um velho de grandes cabelos e barbas brancas, lhe bateu à porta. Hipólito abriu-a e, parecendo-lhe alguém vindo do Médio Oriente, saudou-o com um "Salaam Aleikum!", ao que ele respondeu "Alaikum As-Salaam!".
Trazia duas tábuas numa das mãos e, na outra, um bastão que o ultrapassava em altura. Vestia uma túnica branca desbotada e, sobre os ombros, uma manta vermelho-da-Pérsia, dava cor à indumentária. O olhar era arguto e cada ruga parecia denunciar um grande problema resolvido. Apesar da idade, que se lhe deduzia, tinha o porte corporal de um haterofilista em fim de carreira.
O médico convidou-o a entrar. O ancião apontou o bordão ao fundo da sala e, de imediato, toda a mobília se arredou para os lados para o deixar passar. O médico seguiu-o e, para corrigir a gafe do cumprimento inicial, arriscou: Shalom! Desculpa não ter percebido logo quem eras! Tomei-te por um palestiniano e afinal, pelo jeito, tu és Moisés, o grande libertador dos hebreus.
- Vejo que estás atento! Respondeu o profeta. – Este truque de afastar as coisas à passagem, é a minha imagem de marca. Faço-o desde que abri as águas do Mar Vermelho. Funciona sempre! Não te esgacei a porta, porque venho numa boa! Estava no Jardim do Éden a apanhar kiwis, quando reparei que estavas atarantado com um convite feito por uma sociedade judaica e não resisti em descer, para te esclarecer as dúvidas que ele te possa ter despertado. Por isso, pergunta que eu respondo, de acordo com as nossas normas internas! 

E dito isso, sentou-se no chão, junto à lareira, e convidou Hipólito a sentar-se em frente.
- Ainda bem que vens com esse espírito! Sorriu o médico. - Tomas uma cerveja ou preferes um copo de vinho para acompanhar a conversa?
- Se o vinho fôr kosher, preferia! Senão, bebo um copo de água!
Hipólito trouxe água e dois copos e sentou-se, como ele, no chão, com as pernas cruzadas.
- Ainda bem que te disponibilizas. Desde jovem que procuro entender os porquês de há mais de três mil anos o povo judeu ter períodos de grande florescimento, seguidos de outros em que é vítima de perseguições. Estou-me a lembrar do Egipto Antigo, da Babilónia, do Império Persa, do Império Selêucida, do Reino dos Ptolomeus, do Império Romano, do Império de Carlos Magno, do Império Islâmico, da Península Ibérica, da União Soviética, da Alemanha … . Em todas essas épocas os judeus ocuparam lugares de grande influência económica e política, mas acabaram perseguidos e expulsos. O que é que, na realidade, se passou para estas reviravoltas?

Moisés rolou o bordão sobre as tábuas, como a procurar palavras para uma explicação resumida e, depois de uma pausa, falou.
- A história é longa mas, para abreviar, lembro-te que, depois da destruição do Segundo Templo em Jerusalém, no ano 70 da Era actual, a sobrevivência da nossa religião exigiu que todos os judeus aprendessem a ler, a escrever e a adquirir competências e que, para assegurar a continuidade, todos os pais eram obrigados a ensinar os filhos a fazê-lo, o que constituiu um desenvolvimento revolucionário numa época em que a grande maioria da população era iletrada.
Ora os Impérios, à medida que se expandem, necessitam de profissionais educados e com competências intelectuais diferenciadas e é por isso que os judeus têm sido solicitados para os países nas épocas em que têm maior desenvolvimento. 
Desde que o mundo iniciou a “globalização”, que os judeus se concentram nas cidades com maior pujança económica, organizando a produção e o comércio, mantendo uma rede de influência altamente eficiente
Hoje em dia, dos treze milhões de judeus, 5,5 milhões vivem em Israel e 5,1 milhões EUA. Neste último vivem maioritariamente em Nova York, onde são 9% da população. Na Califórnia, Texas e Massachussetts, estados que geram o maior número de políticos influentes, são 7,6% dos brancos! 
Na época dos descobrimentos tinham forte presença na Península Ibérica, pois eles foram grandes financiadores dessa actividade. Quando foram expulsos levaram de Lisboa a industria de lapidação e o comércio dos diamantes para a Holanda.

Hipólito conhecia o poder e influência dos judeus no mundo ocidental, por serem dos principais banqueiros e CEOs das maiores multinacionais do mundo. Mas o que Moisés ainda não lhe tinha dito era os porquês das perseguições, e insistiu:
- Já vi que falas debaixo do conceito do “povo escolhido por Deus”, mas as perseguições e as mortes como as do Hananias, do Misael e do Azarias, podem ter outra explicação, à luz do conhecimento actual, que aquela que vem na Bíblia. Há milénios que se fala dos judeus como uma comunidade com grande cooperação dentro do grupo (etnocêntrismo), mas com um código ético muito laxo para com a restante população onde se inserem, que os leva a ser considerados, uns ferozes predadores especializados no crédito, na finança, nos bancos e em actividades tradicionalmente consideradas pouco éticas ou imorais como publicidade, entretenimento e pornografia. 

O mais humilde dos homens sobre a face da terra, que um dia recebeu no alto do Monte Sinai as Tábuas da Lei de Deus, suspirou com enfado e respondeu:
- Olha que eu, levado por uma justa cólera, já matei um feitor egípcio. Questionares que o Hananias, o Misael e o Azarias, depois de terem sido nomeados superintendentes dos negócios da província da Babilónia, deitaram a mão ao dinheiro do Nabucodonosor, e que foi por isso que foram jogados na fornalha ardente, é grave! Foram conversas como essa que levaram ao Holocausto e aos pogroms! O verdadeiro judeu, embora faça a gestão de grandes valores, é frugal porque cumpre o desígnio que Deus lhe atribuiu. Escolhido, não significa superior. Significa que transporta o peso e a responsabilidade de O representar neste mundo. O que tem sucedido é que nem sempre quem nos pede ajuda, faz boa gestão e, quando as coisas correm mal e se necessita de um bode expiatório, encontra-nos sempre à mão. A realidade é que a ausência de perseguição que actualmente se verifica nos EUA, tem diminuído a nossa coesão tornando-nos mais americanos e menos judeus! 

Hipólito retraiu-se. Arriscara questionar aquela história bíblica dos três jovens judeus levados para o Reino da Babilónia, que eram “dez vezes mais doutos que todos os magos daquele reino”, sem contar que Moisés estava habituado a lançar pragas e que até tinha capacidade para o extermínio em massa, como o fizera ao exército egípcio no Mar Vermelho, aquando do Êxodo. Decidira, agora, dar-lhe um pequeno elogio.
- Dizem que os judeus têm um Q.I. muito alto. Quando falei do que se tinha passado com aqueles judeus na Babilónia, não queria sugerir que eles tenham utilizado a vantagem que lhes fora concedida para enriquecimento ilícito. Estava a pensar em eventuais dificuldades de integração. 

- Não foi isso que eu entendi!, respondeu o Profeta. – Tens de ter mais cuidado com o que dizes! Uma palavra desajeitada é como a pasta de dentes fora do tubo, já não a consegues voltar a meter lá dentro. De facto, os Ashkenazi, têm um Q.I. médio entre 110-115, maior que qualquer outro grupo étnico do mundo. Há quem o atribua à sua prática antiga de casamento eugénico, mas eu penso que é o grande envolvimento na educação das suas crianças que os leva a obter estes resultados. É notável que sendo cerca de 0,2% da população mundial, tenham ganho 22% dos Prémios Nobel e vencido 54% dos Campeonatos do Mundo de Xadrez.

A conversa ia longa e o médico ainda não chegara ao ponto que mais lhe interessava e que era saber quais os objectivos últimos daquela reunião em Massada e arriscou a perguntar-lhe.
O profeta levantou-se. Riscou no tapete uma linha, com o bordão e disse: 
- Como sabes, são insondáveis os desígnios do Senhor! Mas está descansado, que quem está a liderar o projecto é o "povo de Deus"!, e dito isto, fez-lhe uma vénia e saiu, enquanto os móveis voltavam à sua distribuição habitual, fazendo com que um candeeiro de pé o atropelasse atirando-o ao chão. 
- lehitraot!, ainda teve tempo de lhe dizer, antes que a porta se fechasse. - lehitraot! ouviu, como um eco, do outro lado.

Hipólito sentou-se no sofá. Esta entrevista não fora nada produtiva. As suas dúvidas continuavam mais que muitas!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Esquizofrenia 2



Sente-se “decaído!”, cansado e com a boca queimada - "foi ao comer a sopa!". Diz ter sido burlado! Venderam-lhe um telemóvel desactualizado e não dormiu com medo de não acordar a horas da consulta.
Anda na vida de médico há muitos anos! Desde que está nos psiquiatras, está em sofrimento… A cabeça não anda sossegada!”... Quando era jovem, olhou para uma mulher e sentiu o cérebro a cair desde o céu. Nunca mais teve descanso! Esteve na Guerra Colonial. Foi ele que causou, com o pensamento, o golpe de estado em Moçambique. Diz ter duas cruzes uma à frente e outra nas costas, que já conseguiu falar pelas costas e que consegue transportar-se para uma quarta dimensão. Acha que as pessoas podem ouvir o que pensa e que os americanos e os russos lutam por controlá-lo. Foi por isso que a avó, um dia, lhe bateu!

Não quer ficar internado. Está irritado por ter recebido uma carta do tribunal para tratamento ambulatório compulsivo.

Hoje não abriu a porta à equipa de entrega domiciliária de refeições e os vizinhos, que há mais de um dia o não viam, alertaram a GNR. Foi encontrado caído no chão com fezes e urina em redor. No transporte para a Urgência teve uma crise convulsiva.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um "raminho"!


Sr. Dr..! O meu pai sempre foi muito ansioso! Há uns anos, quando ainda estava bem, levava todas as noites para a cabeceira da cama um copo de água açucarada, com medo das hipoglicemias!  Ele ainda não tomava insulina, mas precavido como era, queria ter a solução à mão!
Um dia acordou a meio da noite com um formigueiro no braço. Com medo que aquilo fosse um sinal, deitou a mão ao copo, bebeu dois goles e voltou a deitar-se. Só que, em vez de melhorar, piorou. O formigueiro que inicialmente só sentia no braço, estendeu-se a toda a face e à língua.
Muito assustado, sentou-se na cama, acendeu a luz e chamou pela minha mãe, dizendo-lhe que estava a ter um “raminho”. Ela, assarapantada, deu a volta à cama para ver o que se passava. Foi quando viu o copo cheio de formigas e muitas espalhadas por aquele lado da cama!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Carta aberta o Pai Natal


Pai Natal: 

Tenho-te escrito com alguma regularidade nesta época em que toda a gente com acesso aos meios de comunicação social, disponibiliza uns minutos aos "dispensáveis" desta sociedade universal do comércio, que enriquece uma minoria e faz parecer a democracia um jogo dos poderosos.

Na tua época, os monges alegavam ser a pobreza “a primeira das bem-aventuranças” e tu, agora,  fazes despudoradamente o jogo do consumismo! Como é?! Até pareces acreditar que são os empresários que se movimentam de negócio em negócio nos mercados livres, que garantem o crescimento económico e a prosperidade mundial e que tudo o que os governos devem fazer é sair-lhes da frente, sem considerarem factores de constrangimento como o espaço geográfico, os recursos naturais e os ecossistemas frágeis que frequentemente, estão na génese da pobreza. 

Pela primeira vez na História, todos os povos da Terra têm um presente comum e sentem o choque dos acontecimentos que ocorrem no outro lado do mundo, amplificados pela imprensa e pelas redes sociais. A variedade está a desaparecer. Todos os povos se copiam e em todos os cantos do mundo se encontra a mesma maneira de agir, de pensar e de sentir.
Estimula-se a ambição, não tanto por uma necessidade real, mas pelo desejo de ultrapassar os outros, num “mimetismo apropriador” que faz desejar objectos, porque os desejos dos outros nos dizem que esses objectos se devem desejar, e muitas das grandes palavras da justiça, da lei, da ajuda aos fracos, da filosofia e do progresso da razão, são iscos inventados por políticos inteligentes para se imporem aos simples.

Ora é essa onda que tu surfas, entretido com vendas de inutilidades, em vez de te preocupares com uma alternativa ecológica que não nos desgrace o futuro.
Devias ter percebido que a tecnologia vai criar um número crescente de desadaptados que, mesmo que lhes seja dado dinheiro para “comprar”, se sentirão insatisfeitos por lhes faltar o reconhecimento social. A Inteligência Artificial e a Robótica (se o estar mundial se não modificar), deverão causar uma alteração brutal no mercado de trabalho, pois só haverá necessidade de empregar 20% da população para que as suas necessidades sejam satisfeitas. O conhecimento exigido para ser um membro produtivo já está a mudar e o sucesso do ensino não se irá medir pelo número de licenciados, mas pelo número de graduados relevantes no mercado de trabalho.

A maioria dos humanos incapazes de entrar nesta corrida poderá revoltar-se e, se dirigidos por homens frustrados, poder-nos-ão levar ao anarquismo ou a nacionalismos fundamentalistas de má memória. 
Eu sei que não se vêm alternativas plausíveis ao actual “credo” que diz que as classes médias criadas pelo capitalismo industrial originarão governos representativos, estáveis, responsáveis e capazes de prestarem contas, que a religião cederá o seu lugar ao laicismo e que as forças do irracionalismo serão derrotadas.

É por isso que te escrevo a pedir que uses o teu reconhecimento público (nas sondagens vais muito à frente do menino Jesus) e abraces uma causa que não nos desenraíze da Natureza e nos tire do limite de termos de rogar a Deus muita saúde para o carro, para ele não avariar. 
Mas não me perguntes como fazer, que eu, quanto mais leio, mais me confundo. Por um lado, acho que a ciência é o caminho para a nossa salvação como espécie, ao nos fazer entender que na Terra há uma multidão de outras espécies que têm papel fundamental no seu equilíbrio e que este nos tem sido favorável e que, qualquer outro, pode levar a ajustes onde não consigamos igual vantagem. Por outro lado, também penso que, quanto mais competências se exigirem para se ser o tal "membro produtivo" da nova sociedade, mais "dispensáveis" se criarão e mais frustração grassará no mundo! 

Tu, embora tenhas residência oficial no Pólo Norte, vais frequentes vezes ao Céu, e, de lá de cima, tens distância para analisar os futuros e avisar as elites arrogantes que há mais vida para além do capitalismo apátrida.
Procura o Maomé, o Buda, o Marx, o Adam Smith, a Nossa Senhora de Fátima, mais quem tu entenderes e vê se no dia 25 os sentas à mesma mesa com o tal "espírito de Natal", para impedir que os humanos se apropriem tudo o que há no Universo e dêem espaço às outras formas de vida!

É este o meu desejo!
Fico à espera!

Um abraço!
Oh! Oh! Oh!

sábado, 9 de dezembro de 2017

Serviço de Urgência


- A senhora é a esposa do Sr. José?
- Sim! Sou!
- Eu sou o médico que está a tratar o seu marido.
- Ele vai ficar internado?
- Não! Estou a pensar em dar-lhe Alta. Não tem doença que justifique o internamento! O que ele tem, está relacionado com o consumo crónico de bebidas alcoólicas. Ele, ainda ontem, bebeu!!!!.... O tratamento, como sabe, é deixar de beber. E isso pode fazer em casa!
- Sim! Mas hoje de manhã ele estava esquisito! Parecia que lhe faltava o ar! Foi por isso que eu chamei o INEM!
- Mas ele agora está bem! Não tem febre, o coração e os pulmões estão calmos e as análises são o que se espera num doente com a sua situação!
- Mas o Sr. Dr. podia interná-lo, para ele descansar o fígado! Da última vez que esteve internado, aguentou quase dois meses!

O Sr. José, veio transferido de um Centro de Saúde e, há horas, que ocupa uma maca do corredor do Serviço de Urgência. Já dormiu, já comeu, já fez análises e uma ecografia, já lhe mediram várias vezes os sinais vitais, e tirando as alterações hepáticas decorrentes de uma cirrose que, de há seis anos, o traz repetidas vezes ao Serviço de Urgência, não se identificou situação que justifique mais um internamento.

- A senhora há-de convir que, um hospital, é demasiado caro para "descansar" o fígado.
- É que, se ele vai para casa, volta a beber!
- Mas ele não pode ficar a viver no Hospital e, ao que parece, quando volta para casa, a família permite-lhe o consumo e ele estraga tudo o que aqui possa ter ganho!
- O que é que eu posso fazer? Se eu não lho dou, ele vai buscá-lo à adega e, se eu lha fecho, ele até é capaz de arrombar a porta. Olhe que ele nunca levantou a mão para mim, mas se eu não lhe der o vinho, não sei do que ele seria capaz!

Esta é a fase em que a conversa pode tomar vários rumos.
Estou num Serviço de Urgência, a horas em que não tenho apoio de Psiquiatria, nem do Serviço Social e em vésperas de um fim de semana prolongado.
O doente teve já sete internamentos em Medicina por complicações relacionadas com a "doença", foi já orientado para a Consulta Externa de Medicina Interna e de Psiquiatria e abandonou-as.

É fácil chamar ao alcoolismo, síndrome de dependência do álcool, catalogá-lo de doença, e atirá-lo para um Serviço de Urgência, ao mesmo tempo que nas comunidades se passa para o outro lado da rua quando se tropeça num bêbado e se alegam liberdades para que cada um faça da sua vida o que quiser. O Islão não é de intrigas. O álcool é uma abominação de Satanás. Proíbe-o e condena os seus prosélitos ao Tártaro (Alcorão 35:6). Não dá lugar para
um indivíduo fazer o que quer, se prejudica os outros. E os amigos, a família e os vizinhos são responsabilizados se não interferem quando uma pessoa se destrói ou prejudica a sua família.

Aqui tudo cai, desde o desgraçado que faz uma inscrição só para ter acesso a uma refeição, ao doente crónico que prefere este espaço "cosmopolita" ao de uma consulta regular no Centro de Saúde.
Quem tem de se dispersar entre situações críticas e casos sociais, desespera quando estes últimos o distraem das suas primeiras funções.

Este tem sete internamentos. Sete oportunidades deitadas ao lixo nos seis últimos anos. Vindas à Urgência, vinte e três.
Entretanto a idade não perdoa e outras maleitas já se lhe juntaram, deixando os médicos na indecisão de uma outra estar a dar sinal, pelo que lhe vão fazendo análises a tudo e mais alguma coisa, sempre que aqui entra.

Forço-me a justificar a Alta à pobre da mulher que não sabe lidar com a situação e se agarra ao que vê à mão. Sugiro-lhe que recorra ao Serviço Social da sua área de residência, falo-lhe dos "Alcoólicos Anónimos", dos filhos que estão emigrados, até do padre da freguesia. Entra-lhe por um ouvido e sai-lhe pelo outro. Ainda penso em contemporizar, mas é  dinheiro do Estado deitado fora. Ter este poder de dar o que não é nosso, dá mais responsabilidade. Caridade com o que é dos outros, qualquer um faz. Mas Caridade não é dar o osso ao cão. Caridade é partilhar o osso com o cão, e eu não estou aqui para substituir a Santa Casa.

- Minha senhora! O seu marido tem Alta. Leva medicação e uma carta para o médico de família!, afirmo, na tentativa de me ver livre deste problema que me retém, muito para além do desejável.

- O Sr. Dr. é que sabe! Mas se ele amanhã não estiver melhor, eu trago-o outra vez, que ele precisa de descansar o fígado!

...

E, nem de propósito, quando chego à maca onde o Sr. José aguarda a decisão, ele inicia uma crise convulsiva.

- Ai Jesus! Sr. Dr.! Ai que ele morre! Valha-me Nossa Senhora de Fátima! ....

Agora são dois em vez de um. Ela com uma crise histeriforme, ele a espumar no caminho para a Sala de Emergência.
...
- Dr.! A esposa do Sr. José está muito sentida consigo!, avisa-me a enfermeira.
- Deixe-a estar! Por favor, diga-lhe que o Sr. José, agora vai ficar cá na Sala de Observações, pelo menos até amanhã! E que pode ir embora! Veja se me poupa a mais um debate argumentativo, que eu já gastei o latim que trazia para hoje. Ela não vai entender que o tempo que demoraram todos os exames, mais o tempo que esteve na SUB que o referenciou, é suficiente para desencadear um síndrome de abstinência, no caso um "rum fit"

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

As palavras que não disse

Fui educado no respeito pelo outro e num ambiente em que se devem procurar as explicações para todos os fenómenos com que a natureza nos surpreende. Cedo desvalorizei a importância do Deus que me foi presente nos primeiros anos de escola, talvez por não ter sido assombrado com as situações dramáticas que afligiam (e afligem) grande parte da população de Portugal e do Mundo. Custa-me, pois, aceitar “orações” e “mortificações” a solicitar a intervenção divina em nosso favor e as práticas de um clero que, frequentes vezes, ao longo da História, tudo fez para manter o poder dos poderosos, por temer que a “heterodoxia” pusesse um fim à “ordem” que assumiam como única possível.
Até ao meu meio século de vida, sempre acreditei que o Homem é “bom por natureza” e toda a maldade que é capaz, tem origem nas circunstâncias em que é colocado e, nesse sentido, tendi a classificar-me como um “Humanista pouco convicto”, pois sempre recusei a pô-lo no centro de toda a vida neste planeta.
As novas religiões (que se apelidam a si próprias de Ideologias) – o Liberalismo, o Comunismo, o Capitalismo, os Nacionalismos e o Nazismo, apesar dos esforços missionários sem paralelo e das guerras mais sangrentas da História, também não me conseguiram converter, deixando-me sem sentido de pertença.

Quem viveu em sociedades fortemente marcadas pela adversidade, e não sentiu soluções para as provações que o acaso lhes pôs no caminho, optou, quase obrigatoriamente, por um Deus e por intermediários humanos, para agradecer as vitórias mais significativas da vida e para ter a quem recorrer nas aflições.

O Humanismo, a religião a que todos agora querem pertencer (mesmo que professem outras), quer que seja o Panteão (familiar ou colectivo) a dar as directivas à sociedade, mas, quando toda a população tem smartphones, já poucos perguntam orientações aos deuses ou à memória dos antepassados. As dúvidas são colocadas ao Mr. Google e os pedidos de ajuda ao Facebook. O relacionamento é feito “on line” e são raros aqueles que se reconhecem pelo cheiro da pele.
Os mais velhos lembram as “velhas glórias” enquanto os jovens viajam no mundo virtual dos novos deuses “made in” Silicon Valley, seguindo-lhes os gostos e objectivos que os fazem acreditar no Dataísmo, que mais não é que um Fé cega nos dados que o Mr. Google e as redes sociais fornecem, e que já constitui a nova religião do século XXI.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Tomara Que Chova



Tomara que chova,
Três dias sem parar,
Tomara que chova,
Três dias sem parar.

A minha grande mágoa,
É lá em casa
Não ter água,
Eu preciso me lavar.

De promessa eu ando cheio,
Quando eu conto,
A minha vida,
Ninguém quer acreditar,
Trabalho não me cansa,
O que cansa é pensar,
Que lá em casa não tem água,
Nem pra cozinhar.